Sorologia para dengue: como interpretar IgM e IgG em conjunto?
Sorologia para dengue: como interpretar IgM e IgG em conjunto?
Entenda a cinética de IgM (imunoglobulina M) e IgG (imunoglobulina G) na dengue, as diferenças entre infecção primária e secundária, a influência da reação cruzada e como evitar interpretações incorretas de resultados sorológicos.
A sorologia para dengue é amplamente utilizada na investigação de pacientes com síndrome febril, especialmente à medida que a fase de detecção direta do vírus se encerra. Entretanto, os resultados de IgM e IgG não devem ser interpretados de forma isolada.
IgM positiva não significa, por si só, dengue aguda confirmada. Da mesma forma, IgG positiva não indica necessariamente infecção atual. Uma IgM negativa nos primeiros dias de sintomas também não exclui dengue, pois a resposta de anticorpos pode ainda não ser detectável.
A interpretação depende principalmente do tempo de evolução da doença, histórico de infecção prévia, exposição a outros flavivírus, contexto epidemiológico e desempenho do método utilizado. A compreensão da dinâmica dos anticorpos é, portanto, fundamental para interpretar corretamente cada resultado.
O que IgM e IgG representam?
Após a infecção pelo vírus da dengue, o organismo monta uma resposta imunológica que inclui a produção de anticorpos específicos.
Em infecções primárias, a IgM costuma ser associada à resposta imune recente. E, geralmente aparece após os primeiros dias de doença, aumenta durante a fase convalescente e tende a declinar ao longo do tempo. A IgG, por sua vez, costuma surgir posteriormente na primeira infecção, mas persiste por período prolongado, podendo ser detectada por muitos anos (figura 1).
Em reinfecções por dengue, o comportamento pode ser diferente. Uma resposta secundária pode apresentar elevação mais precoce e intensa de IgG, enquanto a IgM pode ser menos pronunciada do que em uma primeira infecção (figura 1). A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que infecções primárias tendem a ter resposta de IgM mais forte e específica, enquanto infecções secundárias podem apresentar resposta de IgM mais fraca e resposta de IgG acentuada. Portanto, o padrão sorológico deve ser interpretado como parte de uma linha do tempo, e não como um resultado estático.

Figura 1 – janela de detecção de IgM e IgG – Adaptado de WHO-2025
Por que o dia de sintomas muda a interpretação?
O momento da coleta é um dos principais determinantes da utilidade e da interpretação dos métodos diagnósticos para dengue. Nos primeiros dias de doença, quando há maior presença de vírus e componentes virais circulantes, métodos de detecção direta, como os testes de amplificação de ácidos nucleicos, incluindo RT-PCR, e a pesquisa do antígeno NS1, são mais indicados e podem contribuir para o diagnóstico na fase aguda.
Com a evolução da resposta imunológica, os métodos sorológicos passam a ter maior aplicabilidade. Na infecção primária, IgM e IgG podem não ser detectáveis nos primeiros dias de sintomas, sendo a IgM geralmente identificada posteriormente; portanto, um resultado sorológico negativo em amostra coletada precocemente não exclui dengue. Por outro lado, um resultado reagente obtido em fase tardia deve ser interpretado à luz da cronologia dos sintomas, de infecção prévia, da possibilidade de reatividade cruzada e das características do ensaio empregado.
O IgM anti-DENV geralmente diminui a níveis indetectáveis em 2–3 meses, mas pode permanecer reagente além de 90 dias e, conforme o método analítico, persistir por cerca de 4–6 meses ou, menos frequentemente, aproximar-se de um ano. O IgG surge mais tardiamente na infecção primária, apresenta elevação mais precoce e intensa nas reinfecções e pode permanecer detectável por muitos anos. Assim, um resultado isolado de IgM reagente após 90 dias não confirma infecção aguda e deve ser correlacionado ao quadro clínico, ao momento da coleta e, quando aplicável, a métodos de detecção direta.
Interpretação prática de resultados
A tabela abaixo apresenta uma leitura orientativa. Ela não substitui a validação local do ensaio, a bula do fabricante nem a avaliação clínica individual.

A interpretação integrada é a regra: resultados sorológicos devem ser correlacionados com sinais e sintomas, data da coleta, contexto epidemiológico, histórico de dengue, vacinação e métodos diretos disponíveis.
Infecção primária e secundária: por que isso importa?
A infecção primária corresponde ao primeiro contato com o vírus da dengue. Uma infecção subsequente é classificada como infecção secundária, frequentemente envolvendo outro sorotipo.
Na infecção primária, é comum observar uma resposta de IgM mais evidente, seguida pelo aparecimento de IgG. Na infecção secundária, a memória imunológica favorece uma resposta de IgG mais rápida e intensa, enquanto a IgM pode apresentar menor magnitude.
Quando necessário, a análise de amostras pareadas, coletadas em momentos diferentes, pode fornecer informações adicionais. Soroconversão de IgM ou IgG, assim como aumento significativo do título de anticorpos entre amostras, pode apoiar a identificação de infecção recente.
Alguns ensaios utilizam a relação IgM/IgG como parâmetro auxiliar para diferenciar infecção primária de secundária. Entretanto, essa relação depende da metodologia, dos pontos de corte e do momento da coleta. Não deve ser extrapolada entre diferentes plataformas nem utilizada isoladamente para classificar a infecção.
Reação cruzada: a principal limitação da sorologia
Um dos maiores desafios da sorologia para dengue é a reação cruzada com outros flavivírus. Anticorpos contra Zika, Febre amarela, Vírus do Nilo Ocidental e outros vírus antigenicamente relacionados podem reagir em ensaios para dengue, especialmente nos testes de IgM e IgG.
Esse problema é particularmente relevante em áreas com circulação concomitante de flavivírus ou em indivíduos com exposição prévia a esses agentes. Em determinados contextos, inclusive, um resultado positivo de IgM em amostra única deve ser classificado como evidência presuntiva de infecção recente, e não como confirmação etiológica definitiva.
Quando a identificação específica do agente for essencial, por exemplo, em gestantes com suspeita de zika, em situações de vigilância, em áreas sem transmissão conhecida de dengue ou em casos com implicação epidemiológica relevante, podem ser necessários métodos confirmatórios especializados.
Vacinação e interpretação sorológica
O histórico vacinal também pode ser relevante na interpretação de exames para flavivírus. A vacinação contra febre amarela, por exemplo, pode interferir na interpretação de determinados testes sorológicos.
Em indivíduos vacinados contra dengue, a interpretação laboratorial exige cautela porque vacinas de vírus vivos atenuados podem induzir respostas de IgM e IgG anti-DENV, reduzindo a capacidade da sorologia isolada de diferenciar anticorpos vacinais de uma infecção natural recente. Em caso de síndrome febril compatível com dengue, especialmente nas semanas subsequentes à vacinação, deve-se priorizar métodos de detecção direta na janela adequada, como RT-PCR/NAAT e, conforme o ensaio e o contexto, NS1, e interpretar resultados sorológicos em conjunto com data da vacinação, início dos sintomas, histórico de infecção prévia e cenário epidemiológico. Quando houver detecção de RNA viral em contexto de investigação pós-vacinação, o sequenciamento pode ser necessário para diferenciar DENV selvagem de vírus de origem vacinal.
Isso não significa que a vacinação inviabilize a sorologia, mas reforça a necessidade de considerar o histórico imunológico do paciente, especialmente diante de resultados isolados, discordantes ou inesperados.
Sempre que possível, informações como as seguintes devem estar disponíveis para auxiliar a interpretação laboratorial:
- data de início dos sintomas;
- município e provável local de exposição;
- histórico de viagens;
- episódios anteriores de dengue ou outras arboviroses;
- vacinação relevante;
- gestação, quando aplicável;
- outras informações clínicas relevantes para a definição etiológica.
Recomendações para médicos e laboratórios
Para reduzir interpretações inadequadas, alguns cuidados são fundamentais:
- Registrar a data de início dos sintomas e da coleta.
- Selecionar o método de acordo com a fase da doença.
- Evitar interpretar IgG isolada como evidência de dengue aguda.
- Considerar que uma IgM positiva em amostra única pode exigir avaliação complementar em situações selecionadas.
- Avaliar a possibilidade de reação cruzada com outros flavivírus.
- Considerar amostras pareadas quando a primeira coleta não for conclusiva e houver relevância clínica ou epidemiológica.
- Interpretar resultados limítrofes ou indeterminados conforme o procedimento validado para o ensaio.
- Informar no laudo as principais limitações do método, especialmente quando houver possibilidade de reação cruzada ou persistência de anticorpos.
Conclusão
A sorologia para dengue é uma ferramenta importante, mas seu resultado deve ser interpretado dentro do contexto clínico, epidemiológico e temporal. IgM e IgG representam diferentes aspectos da resposta imune e podem apresentar comportamentos distintos nas infecções primárias e secundárias. A possibilidade de persistência de anticorpos e de reação cruzada reforça a importância da interpretação integrada dos resultados.
Nesse contexto, a disponibilidade de diferentes marcadores e metodologias pode ampliar as possibilidades de investigação ao longo da evolução da doença. Dentro dessa perspectiva, a BIOCON disponibiliza em seu portfólio, na linha FIA, testes para IgG, IgM e NS1 para dengue, oferecendo diferentes possibilidades analíticas de acordo com a fase clínica e a estratégia diagnóstica adotada.
A integração entre tempo de sintomas, contexto clínico, epidemiologia e escolha adequada do marcador é fundamental para uma interpretação laboratorial mais consistente.
Referências
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Laboratory testing for dengue virus. Geneva: World Health Organization, 2024. Disponível em: WHO IRIS — Laboratory testing for dengue virus. Acesso em: 22 set. 2026.
PAN AMERICAN HEALTH ORGANIZATION. Technical note: algorithm for laboratory confirmation of dengue cases. Washington, D.C.: PAHO, 2023. Disponível em: PAHO — Algorithm for laboratory confirmation of dengue cases. Acesso em: 22 set. 2026.
PAN AMERICAN HEALTH ORGANIZATION. Epidemiological Alert: dengue. Washington, D.C.: PAHO, 2023. Disponível em: PAHO — Epidemiological Alert: Dengue. Acesso em: 22 set. 2026.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Serologic tests for dengue virus. Atlanta: CDC, 2025. Disponível em: CDC — Serologic tests for dengue virus. Acesso em: 22 set. 2026.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Clinical testing guidance for dengue. Atlanta: CDC, 2025. Disponível em: CDC — Clinical testing guidance. Acesso em: 22 set. 2026.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Dengue. In: CDC Yellow Book: health information for international travel. Atlanta: CDC, 2026. Disponível em: CDC Yellow Book — Dengue. Acesso em: 22 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Coordenação-Geral de Vigilância de Arboviroses. Nota Técnica nº 7/2026-CGARB/DEDT/SVSA/MS: orientações para a detecção, investigação e encerramento dos casos de dengue no contexto da ampliação da estratégia de vacinação em 2026. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2026/nota-tecnica-no-7-2026-cgarb-dedt-svsa-ms.pdf>. Acesso em: 23 set. 2026.
