O DESAFIO DA PADRONIZAÇÃO NO POINT-OF-CARE

O DESAFIO DA PADRONIZAÇÃO NO POINT-OF-CARE

O crescimento do point-of-care e sua importância em diferentes cenários assistenciais

Nos últimos anos, o diagnóstico realizado por POINT-OF-CARE (POC) deixou de ser apenas um recurso complementar e passou a ocupar um papel estratégico dentro dos serviços de saúde. A busca por agilidade, redução do tempo de espera e tomada de decisão clínica mais rápida impulsionou a expansão de dispositivos capazes de realizar exames diretamente no local de atendimento, seja no consultório, no pronto-socorro ou até em unidades remotas.

Esse crescimento não é por acaso. Em ambientes como pronto atendimento, o POC permite que o profissional obtenha resultados críticos em poucos minutos. Isso acelera condutas, melhora fluxos internos e pode impactar diretamente o desfecho do paciente, como nos casos de dor torácica, sepse, descompensações metabólicas ou acompanhamento de pacientes crônicos.

Nos ambulatórios, o POC melhora a experiência do paciente ao possibilitar que o diagnóstico e o plano terapêutico aconteçam na mesma consulta. Para o profissional de saúde, significa maior assertividade clínica e serviço completo oferecido ao paciente.

Em unidades remotas e ações coletivas, como áreas rurais, comunidades ribeirinhas, assistência domiciliar e campanhas de saúde, o POINT-OF-CARE se torna praticamente indispensável. Nessas regiões, o acesso ao laboratório central é limitado ou inexistente. Equipamentos portáteis e testes rápidos garantem que populações vulneráveis recebam cuidados diagnósticos com a mesma qualidade que os grandes centros urbanos, reduzindo desigualdades e fortalecendo a atenção primária.

Combinando rapidez, acessibilidade e facilidade de uso, o POINT-OF-CARE vem consolidando seu espaço como uma das tecnologias mais relevantes para a medicina moderna. Ele conecta o diagnóstico à prática clínica imediata, promove eficiência e amplia o alcance dos serviços de saúde, motivos pelos quais seu crescimento continua acelerado em todo o mundo.

 A rapidez do POC contrasta com um desafio: resultados que às vezes divergem do laboratório central

Embora os equipamentos de análise rápida ofereçam uma entrega imediata de resultados, ele também traz um desafio que preocupa profissionais de saúde: a discrepância ocasional entre os valores obtidos no POC e aqueles fornecidos pelo laboratório central. Essa diferença pode gerar dúvidas na interpretação clínica, especialmente em exames críticos como os de glicemia, eletrólitos, gasometria, lactato, PSA, troponina e D-dímero. Em muitos serviços, é comum que o mesmo paciente apresente resultados distintos quando o teste é repetido em um analisador tradicional, mesmo quando realizado em curto intervalo de tempo. A questão, porém, não é tão simples quanto parece. O problema pode não ser o equipamento, e também pode não ser a amostra. A verdade é que a comparação direta entre POC e laboratório envolve variáveis técnicas, biológicas e operacionais que podem não ser percebidas no dia a dia. Diferenças metodológicas, interferentes na amostra, condições de coleta ou até mesmo detalhes de manuseio podem influenciar significativamente o resultado. Isso coloca em evidência um ponto crucial: a agilidade do POC precisa caminhar lado a lado com a padronização, para garantir que a rapidez não comprometa a confiabilidade dos dados clínicos. E entender por que essas divergências acontecem é o primeiro passo para evitá-las.

Por que padronização é tão desafiadora no POC?

Padronizar processos já é complexo dentro de um laboratório clínico tradicional, onde o ambiente é controlado, os operadores são treinados continuamente e a infraestrutura é estável. No POINT-OF-CARE, esse desafio se multiplica porque o teste sai do laboratório e passa a acontecer em diferentes mãos, em diferentes lugares e muitas vezes em condições imprevisíveis.

  1. Operadores diversos e técnicas distintas

No POC, o mesmo equipamento pode ser utilizado por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos e outros profissionais. Além disso, alguns ambientes, como pronto atendimentos, possuem rotinas com várias equipes a cada período. Cada pessoa tem seu ritmo, sua experiência e seu nível de familiaridade com o procedimento.
Pequenas variações, como o volume colocado no dispositivo, o tempo entre a coleta e o teste ou a forma de homogeneizar a amostra, podem gerar alterações significativas no resultado.

  1. Condições ambientais que fogem do controle

Além disso, o POC atua em locais como pronto-socorro, ambulatórios, áreas externas, unidades móveis ou regiões remotas. Temperatura elevada, ar-condicionado instável, vibração, poeira ou luz solar direta podem interferir no desempenho dos reagentes e sensores. Essas condições afetam tanto a amostra quanto o dispositivo e o sistema de leitura, aumentando a variabilidade dos resultados.

  1. Variações nos tipos de amostra

Outro ponto crítico é a matriz amostral utilizada.

O mesmo analito pode ter comportamento diferente em sangue total, plasma ou soro, devido a fatores como hematócrito, proteínas, viscosidade ou presença de anticoagulantes. Dessa forma, se o serviço alterna entre tipos de amostra ou se não segue rigorosamente as instruções do fabricante, a padronização se perde rapidamente.

Limitações tecnológicas dos dispositivos portáteis

Apesar de robustos, os equipamentos POC têm restrições inerentes ao seu design compacto:

  • Sensibilidade reduzida em comparação a grandes analisadores.
  • Detecção baseada em volumes muito pequenos, o que aumenta a influência de micro variações no preenchimento dos cartuchos.
  • Dependência de reagentes altamente estáveis, que precisam resistir ao transporte, variação térmica e manuseio simples.
  • Faixas de linearidade mais estreitas, dificultando a comparação direta com metodologias laboratoriais.
  • Esses fatores tornam o ambiente POC naturalmente mais sujeito à variabilidade, não porque a tecnologia seja falha, mas porque o contexto de uso é muito mais dinâmico e menos controlado.

Como minimizar discrepâncias entre POC e laboratório

Embora diferenças pontuais entre testes POC e análises laboratoriais tradicionais possam ocorrer, é possível reduzir significativamente essas discrepâncias adotando boas práticas de padronização. O primeiro passo é garantir que os dispositivos POC utilizados sejam validados internamente, seguindo protocolos de verificação de desempenho, precisão e exatidão. Além disso, treinamentos periódicos para os profissionais que realizam os testes asseguram o uso correto dos dispositivos, evitando erros pré-analíticos comuns como volume inadequado de amostra, tempo de leitura incorreto ou armazenamento inadequado dos kits.

A comunicação contínua entre os setores também é fundamental. Laboratório e equipe POC devem alinhar procedimentos, revisar casos de divergência e ajustar fluxos internos quando necessário. O uso de controles de qualidade rodados de maneira sistemática, preferencialmente comparando valores de amostras idênticas entre POC e laboratório, permite monitorar tendências de variação e agir preventivamente.

No fim, minimizar discrepâncias não é apenas uma questão técnica, mas de gestão integrada: quando todos os elos da cadeia diagnóstica trabalham sob os mesmos critérios, o resultado entregue ao paciente é mais confiável, rápido e clinicamente útil. Essa integração fortalece a tomada de decisão médica e garante que os testes POC sejam aliados precisos do laboratório central, e não fontes de dúvida.

REFERÊNCIAS

Controle da qualidade laboratorial: implementação de valores de referência próprios determinados no controle interno — Brandelero, E.; Tessari, F. D. Revista RBAC, 2022.

Clinical correlation between the Point-of-care testing method and the traditional clinical laboratory diagnosis in the measure of the lipid profile in patients seen in medical offices — J. Braz. Patol. Med. Lab., v. 52, n. 6, p. 387-390, 2016.

Best Practices in the Implementation of a Point of Care Testing Program: Experience From a Tertiary Care Hospital in a Developing Country — artigo internacional que discute QA/QC em POCT comparando com laboratório padrão.

Quality Control Issues in Point of Care Testing — revisão sobre controle de qualidade em POCT.

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